Não é de hoje que as sociedades proíbem a defloração da mulher antes do casamento. Embora não seja condição universal, a proibição tem alicerces nas sociedades ocidentais, por difundir a idéia (não verdadeira) de que virgindade é sinônimo de virtude, de qualidade, de mulher “ideal”. O emprego do termo defloração deve-se originalmente à idéia de que, com a ruptura do hímen, a mulher perderia a “flor da virgindade”.
Ligar qualidades femininas à virgindade, e, por consequência, à castidade, antes de suposto casamento (isso também seria imposição), sempre foi, e pode ser considerado, das mais terríveis FORMAS DE DOMINAÇÃO da SEXUALIDADE e DO COMPORTAMENTO DAS MULHERES. Reduzir a mulher e suas potencialidades ao “selo” virginal é uma das FORMAS QUE O MACHISMO ASSUME NA CULTURA.
A grande influência da religião judaico-cristã sobre costumes e crenças e, por ser o Brasil o maior país católico do mundo, a origem e a manutenção das idéias sobre virgindade apresentam inseparáveis relações com dogmas do Cristianismo. A virgindade, mais precisamente a de Maria, constitui-se, para o antropólogo Luiz Mott, em uma das verdades mais delicadas e basilares da teologia católica. Isso porque certos axiomas da moral ocidental, sobretudo na nossa sexualidade, dependem diretamente da manutenção desse dogma.
Portanto, a criação e permanência de tais idéias podem ser vistas como condição imprescindível para, não só manter instável a MORAL SEXUAL no ocidente, mas como também LEGITIMAR A VIOLÊNCIA e A DOMINAÇÃO MACHISTA, responsáveis pela coerção aos direitos da mulher na sociedade patriarcal em que vivemos. Da mesma forma, em matéria de comportamento, REPRIMIR toda forma de vivência sexual que não conduza à procriação (considerando, ainda, impuro e imoral a possibilidade da mulher experimentar o sexo antes do casamento) retiram a LIBERDADE SEXUAL FEMININA.
Tais idéias conferem ao homens e/ou maridos todo o poder sobre a esposa. Coloca o casamento como INCONTESTÁVEL DESTINO na vida da mulher e conseqüência natural do “ser feminino” e do “ser mulher”.
É preciso rever a desigualdade entre homens e mulheres, desmascarar a trama preconceituosa, repressora e incoerente que trata os direitos humanos através de dois pesos e duas medidas.
Conhecer e admitir esta faceta de repressão na história da sexualidade feminina não é exaltar a perda da virgindade ou fazer apologia ao sexo descontrolado, irresponsável e promíscuo.
Desmascarar a construção desse MODELO IMPOSTO DE VIRTUDE FEMININA é, acima de tudo, buscar o direito da mulher de ser vista e tratada com respeito, com a dignidade de quem deve ter acesso à informação sobre o seu corpo para decidir, dentro de valores morais e pessoais, o momento certo para buscar o sexo. E, a partir desta vivência, estabelecer relacionamentos sexuais e efetivos, amar, ser amada e sexualmente feliz.